terça-feira, 5 de junho de 2007



“Pertencemos a um grupo não só porque nascemos nele, não apenas por confessarmos pertencer a ele e, por último, não porque lhe prestamos nossa lealdade e fidelidade, mas principalmente porque vemos o mundo e certas coisas no mundo da maneira como ele vê”




Este pequeno ensaio visa esclarecer algo sobre o goticismo e o movimento gótico moderno, a fim de desmistificar o tema ao público leigo e especialmente refletir, junto aos góticos, sobre as diferenças mais marcantes que revelam o contraste existente entre aqueles se confessam como tal. Em termos gerais poderíamos definir o goticismo como uma visão romântica, surrealista e medieval do mundo e da vida, entre outras características. Essa maneira de perceber as coisas conduz a um jeito de ser, que pode exteriorizar-se na estética pessoal e em alguns costumes associados aos góticos. Isso leva à conclusão de que uma pessoa “gótica” o é em seu interior, sendo que isso não necessariamente irá se manifestar em seu exterior. Vários motivos podem justificar essa ausência de manifestação, entre eles a pressão da família, da comunidade local (costumes) ou até mesmo uma opção própria pelo anonimato. Pode ainda a pessoa “gótica” não sentir essa necessidade, simplesmente; embora as pessoas mais próximas provavelmente notarão essas características de maneira a não julgarem algo “anormal”. O romantismo é uma característica essencial do goticismo. Esse romantismo não está associado necessariamente a enlaces afetivos dirigidos a uma pessoa, e sim a um sentimento de extrema intimidade com a natureza e no encanto com suas características mais belas e terríveis. Além disso, o romantismo gótico traduz-se também pelo bem-estar íntimo que a pessoa gótica experimenta. Por isso muitas vezes os góticos são tidos como pessoas que gostam da solidão. Isso não é exatamente uma verdade, ocorre que a pessoa gótica sente-se muito bem consigo mesma, e por isso lhe apraz os momentos de introspecção. A solidão não é vista como algo ruim se se sente bem consigo mesmo. Para entender a perspectiva do medieval, somos remetidos à origem do termo gótico, e encontramos então a história de um dos povos mais peculiares da Idade Média. Os Godos eram considerados bárbaros ao pensamento romano-cristão, e figuraram entre os últimos povos a serem “convertidos”. Ocorre então que os Godos criaram uma percepção muito particular sobre o cristianismo, encarando-o provavelmente no interior como apenas mais uma maneira de ver o mundo. A dualidade entre o bem e o mal, suscitado por Deus e Satã encantava os Godos, que produziram imensa literatura poética e dramática a respeito dos mistérios ligados aos problemas filosóficos suscitados pelas contradições e contrastes dessa nova percepção. Os Godos, conquistados pelo império de Roma no início da Idade Média terminaram por devolver o produto dessas reflexões não apenas na forma de literatura, mas também na arquitetura espetacular, a lembrar as catedrais góticas de Reims, Chartres e a mais conhecida Notre-Dame de Paris (séculos XIII e XIV). Posteriormente, no século XVI o termo gótico passou a figurar como sinônimo simplesmente de medieval ou até mesmo bárbaro (às vezes no sentido do “bom selvagem” de Rousseau). Quem procurar conhecer melhor a história dos Godos poderá perceber os elementos hora do drama, hora do romantismo, hora da melancolia e mesmo do sentimento de mistério que caracterizava esse povo. Voltando à concepção moderna do termo goticismo, acrescenta-se o termo medieval ao romantismo porque a “visão romântica do mundo” para o gótico é aquela associada muitas vezes à admiração que os povos da idade média tinham para o desconhecido. Em outras palavras, o gótico observa com uma grande dose de encanto pessoal o mistério, especialmente os mistérios ligados às questões mais fundamentais sobre nossa existência e o mundo. Num exemplo, observar um céu estrelado é testemunhar uma grandiosidade que maravilha a um espírito sensível. Certamente que algo assim não foi privilégio único da Idade Média, no entanto aos povos medievais a ignorância em muitos campos e a fertilidade da imaginação facilitava essa visão poética que, sabemos, exteriorizou-se numa busca geralmente acompanhada por descrições fabulosas de um mundo povoado por seres estranhos, anjos e demônios, mapas antigos descrevendo locais de monstros marítimos, magia, alquimia, castelos e momentos épicos. É esse “romantismo medieval” que caracteriza a pessoa gótica.É bom mencionar que para um gótico a Ciência, com todas as suas descobertas, não faz diminuir a beleza estética ou mesmo o sentimento de mistério que caracteriza a visão romântica do mundo. Importante frizar isso porque, em um exemplo, para algumas pessoas a explicação de um psiquiatra sobre como os hormônios aparentemente “guiam” o sentimento de paixão entre duas pessoas parece tornar as coisas mais “cinzentas”, ou que conhecer os detalhes físicos implicados na visualização de um arco-íris o torna menos belo. Ao contrário, um gótico busca conciliar o conhecimento com a emoção. Saber que o Sol é uma esfera de hélio em reação nuclear não tira o encanto de observar a chuva de raios que ocorre quando sua luz se reflete nas ondas de um rio. O conhecimento e o refinamento cultural é algo que deve ser sempre buscado. Aliás, a ampliação da percepção e conceituação da “realidade” trazida pela Ciência não deve significar outra coisa senão horizontes mais fecundos, como um monte mais alto (ou apenas outro monte, para alguns) com o qual acrescentam-se outras “miradas” para apreciar e enamorar-se com a natureza em diversificados níveis. Sendo possível a conciliação do romantismo e do conhecimento, podemos recorrer à imaginação e à criatividade capazes de proporcionar o prazer estético, enunciando o surrealismo como característica apreciada (e às vezes vivida) pelos góticos. Os devaneios da imaginação sem preconceitos geram formas-de-pensamento diversificadas, e a libertação dos grilhões de uma moral religiosa do senso-comum permite que se ouse obter prazer em tais noções, por mais que sejam consideradas profanas. Chegamos agora a ponto de considerar o resultado de tudo isso dentro da esfera teológica. Não temos ainda nenhuma pesquisa verdadeira feita para se verificar a concepção religiosa dos góticos, no entanto a soma das características citadas até o momento pode nos dar uma pista, à qual irei somar minha experiência pessoal de vivência entre os góticos. Como era de se esperar, entre os góticos figuram um pequeno número de cristãos (católicos ou esotéricos) e satanistas (satanismo moderno de Lavey em sua maioria absoluta e satanismo tradicional em minoria) e um maior número de agnósticos (livres-pensadores e deístas), gnósticos, ocultistas e wiccans, entre outros gêneros híbridos destes.




Melancolia Gótica




O senso-comum parece encarar os góticos como pessoas melancólicas, às vezes depressivas. Isso não é verdade para a depressão (não de forma vinculante), mas pode ser verdade se ajustarmos o conceito de melancolia para aquilo que os próprios góticos traduzem. Por melancolia gótica pode-se pensar num sentimento de paz tão interior que muitas vezes dispensa a exteriorização frenética de manifestações exteriores. O sentimento de reflexão ou simplesmente de contemplação traz a necessidade de uma quietude que é fundamental para a sedimentação daquilo que toca em nossa sensibilidade. Isso pode ser uma música de caráter nostálgico, a vivência interior de algumas memórias, a autocontemplação ou mesmo a catarse resultante a observação de um cenário sensibilizante. Algo como acordar, quando muito cedo, abrir as janelas e sentir aquele frio de certa forma regenerador mesmo que “aparentemente” desconfortável (pulsão de vida), e notar um céu cinzento do qual caem minúsculas gotas de sereno. Ou ainda saudade. Saudade de tempos que nunca se viveu, passados, ao lembrar ícones que nos transportam pelas viagens da mente aos imemoriais tempos antigos ou, porque não, futuros? Enfim, alguns sentimentos podem não ser exatamente a melhor descrição do que as pessoas chamariam de “bom”, no entanto eles são as coisas que mais nos dão a certeza de estarmos vivos. E isso acaba gerando uma ambivalência que é apreciada sobremaneira pelo gótico. Por isso, quando um gótico às vezes aparentar algo melancólico saiba que isso não quer dizer que ele está obrigatoriamente “triste”. Pode ser que ele esteja paradoxalmente feliz em seu estado interior.
Se alguém que você conhece e que se declara gótico discordar do que escrevi até aqui sobre as características fundamentais do goticismo, então sugiro que a luz vermelha do seu ceticismo se acenda na direção de um de nós dois (eu ou seu amigo). No entanto, as declarações a seguir são produto mais de uma reflexão pessoal com base na experiência do que um tratado que aspire à exatidão, e como vou ousar em uma questão relativa a fatos existentes mas pouco debatidas entre os góticos é esperado que isso renda controvérsia. Vimos nos parágrafos anteriores que o goticismo é caracterizado por um modo de se perceber o mundo e a vida, ou seja, não é obrigatório que alguém exteriorize isso no vestuário ou em atitudes imutáveis. Isso também leva a consideração de que alguém pode ter uma personalidade gótica, mas nem mesmo se dar conta disso (relacionando-a ao goticismo). Em outras palavras, pode haver pessoas que tenham esse sentimento gótico, o romantismo, o prazer estético pelo clássico e medieval e ao mesmo tempo pelo surrealismo, e ainda assim não ter sequer ouvido falar de “góticos”. No entanto, parece sensato aos que tem o conhecimento sobre os góticos caracterizar, ao menos para si, essa pessoa como uma pessoa de índole gótica. Não sou chegado a “evidências anedóticas” (casos pessoais) para exemplificar argumentos, mas dessa vez e apenas em função didática vou quebrar o protocolo. Desde meus 12 anos, aproximadamente, comecei a me interessar pelo oculto. Não necessariamente “ocultismo”, mas aquela “admiração socrática” com o que me pareciam mistérios dignos da minha mais pura curiosidade. Subsidiariamente a isso um sentimento interior às vezes de melancolia, às vezes de euforia me assolava ao contemplar alguns fatos da vida dos quais eu era bem mais ignorante que hoje. Eu gostava de diversos tipos de cores de roupas, mas me interessava muito mais pelas de cor branca e de cor preta. Jamais roupa com estampa. Cheguei a ser apelidado, aos 14 anos, de “Luto” na sala de aula que freqüentava. Confesso que me sentia diferente não por isso, mas porque algumas coisas pareciam me chocar mais do que chocavam à maioria. Eu parecia ser mais sensível aos apelos do drama, da alegria e especialmente da dor e tristeza das outras pessoas. Com 15 anos, morando em praia e já então tendo me convencido a abandonar as roupas escuras, conheci algumas pessoas que se intitulavam “góticas”, e com estes tive o sentimento de ter “me encontrado”. Hoje em dia, com 27 anos, moro em cidade que não encontrei nenhum grupo que se intitule assim, mas é certo que esse sentimento que sempre houve em mim me acompanha.Conheci sim outras pessoas, mais ou menos parecidas, e que partilham comigo esse sentimento que caracteriza os góticos. Algumas dessas pessoas com 40, outras com 50 anos, e que parecem expressar no olhar um sentimento de busca e ao mesmo tempo de romantismo, da opção estética relacionada ao medieval e da atitude mental que não ignora os conceitos pós-modernos e o surrealismo. Para essas pessoas, o vestuário preto, o branco ou em estilo simplesmente “clássico” ou ainda “roupas sem estampa” parecem fazê-las recordar de sentimentos que antecedem a própria existência (o que lembra a melancolia gótica). Esse é o ponto crítico, onde ao meu ver faz-se necessário repensar conceitos. As pessoas góticas que conheci concordariam plenamente comigo que os exemplos que citei franqueiam sem sombra de dúvidas as características do goticismo. Como afirmou o sociólogo Mannhein em 1960, citado na introdução deste ensaio, pertence-se muito mais a um grupo por ver as coisas como ele vê do que por se “auto-intitular” ou ser “reconhecido” como tal. Eu não conheci todos os góticos que existem, mas ao contrastar as pessoas que intitulam como tal saltam-nos à vista questões que ao meu ver merecem uma reflexão.




DIVISÕES DO GOTICISMO




Percebemos que há duas maneiras de se vivenciar o goticismo: individualmente, através das características enunciadas na primeira parte desse ensaio, ou em grupos de pessoas que se intitulam góticas, grupos esses mais conhecidos como tribos. O goticismo individual pode ocorrer tanto pela falta de conhecimento da existência de uma tribo quanto pela discordância da pessoa quanto à ideologia disseminada por um grupo específico. Nesse caso, uma pessoa pode continuar sendo gótica mesmo optando por não fazer parte de uma determinada tribo (ou desejando não fazer parte de qualquer uma delas). A convivência de “pessoas góticas” nas tribos permite que, ao menos nos momentos que estão juntas, as características interiores de cada um possam ganhar expressões exteriores mais rapidamente. Não há qualquer temor de repreensão ou discriminações. Pode-se dar vazão aos sentimentos e pensamentos por mais “surrealistas” que sejam. Isso leva à possibilidade da individualização de cada tribo, e também da deformação desta quando relacionada às características gerais do goticismo tais como mencionadas na primeira parte deste ensaio. Essa é a parte mais crítica de todo esse trabalho, onde se faz mister refletir a existência de uma divisão ideológica de razoável proporção, justificando assim a conceituação de dois “tipos” de góticos que seguem.
Goticismo Clássico (ou Tradicional) e Goticismo Surrealista (ou Neogoticismo)
Por goticismo clássico ou tradicional tomemos a descrição mais próxima àquela trabalhada na primeira parte deste ensaio. Ficando assim, o goticismo clássico é muito mais um “modo de ver o mundo” do que uma atitude obrigatória de exteriorizar-se como uma pessoa gótica. Aqui figuram como personalidades góticas ou artistas do estilo gótico grandes partes dos escritores da literatura Romântica, do Drama, do Terror, da arte surreal, dos Clássicos e Épicos, com destaques para Álvarez de Azevedo, Victor Hugo, Walpole (Séc. XVIII, criador da “Gothic Novel”), Bran Stocker (“Drácula”), Salvador Dali, Van Gogh, Dante Allighiere, Cecília Meireles, Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”) entre uma infinidade de outros. Vejo importante a distinção entre o goticismo clássico e um outro tipo de goticismo que é o mais caricaturizado pelo senso-comum, devido a uma maior exibição dos góticos surrealistas (ou neogóticos). O goticismo surrealista é caracterizado por uma presença maior de jovens que, devido à opção pela vivência em tribos acabou por tomar uma forma própria de manifestação. Acontece que muitos desses jovens acabaram fazendo o caminho contrário ao que normalmente ocorre a uma pessoa que vê o mundo de acordo com o goticismo tradicional, ou seja, motivados pela aceitação em um grupo passaram a ir do exterior para o interior. A minha observação aqui é que o exterior pode mudar, pode se ajustar a vontades, mas o interior não muda necessariamente devido a isso.Ora, sabemos que a maioria dos góticos gosta de cores escuras para se vestir, mas que isso não é obrigatório em momento algum. O branco também é uma “cor gótica”, ou então um vestuário clássico qualquer (ou ainda roupas sem estampa) para falar do goticismo tradicional. Ainda assim, o vestuário deveria ser uma das questões menos importantes. Exemplos anteriores (e especialmente a história dos Godos) nesse texto deixam isso muito evidente. No entanto, há uma *crença* que surgiu há algumas décadas que “gótico só anda de preto”, e essa crença foi amplamente incorporada por algumas tribos que hoje se destacam mais na qualidade de góticos surrealistas ou neogóticos. Assim, embora tudo na personalidade da pessoa pareça indicar que a pessoa seria um “cyber-punk”, um blackmetaller ou até mesmo um clubber (sem qualquer crítica a essas tribos), a pessoa se veste de preto, pinta os olhos, coloca alguns piercings e passa a andar com uma tribo de góticos composta na maioria das vezes por indivíduos que chegaram a esse estágio exatamente dessa mesma forma!Então você ocasionalmente assiste uma entrevista com góticos muito jovens que falam sobre seus costumes de passar a noite em cemitérios, vestir-se de preto e manifestar algum tipo de revolta social através de atitudes que nem sempre são bem recebidas pelos costumes comuns (até aqui não é problema meu – aliás, nem estou dizendo que se trata de um “problema”). Meus caros, eu quero deixar claríssimo que não estou excluindo os góticos surrealistas (ou neogóticos) do que seria o goticismo universal. Eu nem tenho essa pretensão e nem teria esse poder., até porque os neogóticos ou surrealistas são muito mais organizados na forma de tribos do que os clássicos. Mas eu quero trazer a lume que passa da hora de uma reflexão de que existem certamente dois tipos de goticismo que possuem diferenças tais entre si que justificam uma diferenciação (sem que isso exclua alguém!) Não temos dúvidas de que para algumas pessoas, o conceito de goticismo não passa de algo como “um grupinho de jovens drogados, vestidos de escuro, cheios de olheiras, que vivem depressivos conversando com caveiras em cemitérios e adeptos do sexo bizarro”. E se for preciso eu abandono o conforto da hipocrisia para enveredar para a necessária rudeza da sinceridade, e dizer: em alguns casos é isso mesmo! Agora, eu não pretendo aqui nesse ensaio dizer que isso é feio ou bonito, não estou aqui para dar lição nenhuma a alguém. Cada qual com sua consciência. Eu pretendo é deixar muito claro que se isso existe, também existe um outro tipo de goticismo que é o que atende mais ao conceito tradicional da palavra, que remete aos Godos, ao clássico, ao romântico, ao culto, e ao surreal como a liberdade de pensamento e de ideologia dominante. Se alguém acha ainda que isso é “conciliável” com a situação do neogoticismo então deixo claro que quando me refiro aos góticos tradicionais ou clássicos estou falando apenas naqueles cuja natureza da personalidade não combina com o tipo de atitude consagrada pelo senso-comum ao neogoticismo, tal como abordado no parágrafo anterior. Ficando assim, confesso que sou um adepto do goticismo clássico.Eu gosto de cemitérios. Sim, os cemitérios podem nos dizer muita coisa sobre a cultura de um local, até mesmo sobre a religião e a variação da configuração econômica deste na linha do tempo. Existem cemitérios que contém obras de arte de grandes escultores e pintores, que dificilmente se encontra em museus. Os cemitérios me trazem um sentimento de paz, e até mesmo de reflexão sobre a vida. Por fim, o cemitério é “gótico” em essência, devido à concepção artística do mesmo e ao fato de não ter mudado muito do período medieval, em alguns locais, ao atual. Sei que muitos outros góticos clássicos também apreciam essas características, mas não necessariamente para ir namorar, conversar ou fazer algum tipo de ritual ou ponto de encontro no cemitério; o que sabemos ser exatamente o objetivo de muitas tribos de góticos surrealistas ou neogóticos. Até aqui também não estou dizendo que os neogóticos estão certos ou errados nisso, afinal o problema não é meu. Passa a tornar-se certo incômodo, e isso eu não vou negar, quando confunde-se as duas expressões do goticismo como sendo exatamente a mesma (a existência de uma única forma de goticismo), e acredito que aqui posso contar com a inteligência de meu leitor para dispensar ainda mais explicações sobre o motivo disso. Não estou dizendo também que o goticismo surrealista ou neogoticismo surgiu do poserismo. Na verdade às vezes eu chego a pensar nisso (alguns amigos meus defendem ferrenhamente essa possibilidade), mas creio que hoje em dia o movimento gótico nessa expressão nova encontra-se estabelecido o suficiente para resistir a essa observação. Isso leva à conclusão mais óbvia de que resta então reconhecer isso como uma expressão própria, cultural e bastante específica do goticismo. Assim como existe uma outra expressão do goticismo que em termos ideológicos e de atitude não é compatível com esta, que é o goticismo clássico ou tradicional.E ninguém vai precisar morrer ou matar por isso, afinal percebo que os góticos surrealistas ou neogóticos também compartilham a característica do refinamento cultural, e nesse caso é possível uma convivência fraterna entre essas duas formas muitas vezes antagônicas de goticismo. O reconhecimento da existência das diferenças e ainda mais, o respeito a elas é uma conseqüência natural da cultura.Não vou “encerrar” esse assunto, fechando-o. Cada um é livre para discutir essa questão levantada como quiser. Passarei a seguir a discutir um tópico que interessa a todos os góticos.




CULTURA GÓTICA




Creio ter reunido evidências suficientes para concluir que os góticos (tanto os clássicos quanto os neogóticos) constituem a tribo mais culta de todo o universo underground. Há amplas evidências a favor disso (ainda que alguns góticos clássicos como eu não sejam “do underground” em concepção). As produções literárias, artísticas e cinematográficas acumuladas por muitas décadas e que configuram expressões do goticismo são em número imensamente superiores a qualquer outro agrupamento difuso (perdendo para organizações mais antigas como a Maçonaria e semelhantes, que tiveram coesão grupal e mais tempo para influenciar culturas). Eu vejo o goticismo como um dos grandes celeiros da pós-modernidade. Se o interesse coletivo dos góticos fosse unificado em um objetivo comum, e devido às características que configuram o goticismo, se teria força para engendrar perspectivas críticas que poderiam ser muito úteis para a sociedade. Num mundo onde a violência parece transbordar todos os limites, a noção do pensamento e atitude pacífica dos góticos ressalta seu papel até mesmo social, como exemplo de possibilidade de tribos urbanas que podem viver em paz. Aliás, eu vejo o goticismo como uma expressão viva da liberdade de pensamento e do respeito à individualidade. Enfim, onde se parece haver um contraste tão grande entre o racional e o emocional, e onde fala-se tanto sobre a escolha entre ser um ou outro, o goticismo traz uma mensagem de que é possível o conhecimento científico e a erudição sem a perda do encanto, da poesia e do romantismo. E de que, numa analogia bem específica mas que deve ser estendida a todas as outras esferas, tão importante quanto “aprender a técnica de pintar” seria aprender a ter prazer com a pintura. Mesmo como está, o mundo e a vida ainda têm belezas suficientes para encantar os espíritos sensíveis. Eu acredito que essa pode ser a nossa grande mensagem, tanto dos góticos tradicionais quanto dos surrealistas.








2 comentários:

Natasha disse...

Olá!

Neste texto há muito de tudo o que não tem nada a ver com o gótico..

Não existe o termo goticismo em português, este termo é ligado apenas à uma literatura inglesa "gothicism" e nada tem haver com a SUB-CULTURA gótica.
Ninguém nasce gótico, aliás ninguém nasce nada, o que acontece é que, enquanto a pessoa que se IDENTIFICA com determinado tipo de sub-cultura, foi adotando elementos estéticos (entenda-se estética como um todo) que é acressentado na mesma ao longo de sua vida, ou seja, enquanto crescia (era uma coisinha que o atraía ali e outra lá e torna-se uma bola de neve).

"GODOS" (ou bárbaros) não possuem nenhuma ligação com a origem histórica do gótico nos anos 80 nascido do punk.

Góticos NÃO são melancólicos ou deprimidos (que alías, depressão é uma doença)... melancolia sería no caso uma uma aversão a felicidade (é o oposto) alguns odeiam como outros no meio gótico aderem a melancolia, mas isto é questão de comportamento pessoal e não grupal.

E o mais errôneo é dizer ainda que góticos são fechados a somente melancolia, introspectção (logo, introspecção é sintoma de melancolia) temática romantista sendo que todos tiveram em suas vidas uma educação e história diferente até se interessar pelo gótico e adotar certos ESTERIÓTIPOS (não apenas um, mas em vários que a pessoa mais se identificar).

Giulia disse...

Gostei muito do que escreveste ;)